Tuesday, June 29, 2010

Ausência


"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto, a tua presença é qualquer coisa, como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto, existe o teu gesto e em minha voz, a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim, como a fé nos desesperados.
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face, na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos, enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim, a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei, como ninguém, porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas...
serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada."

[de, Vinícius de Moraes]

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